O Carnaval 2018 em Caraguatatuba marca o aniversário de 35 anos do famoso Bloco das Piranhas. Nascido de uma brincadeira, de forma malograda na sua estreia e inspirado num grande folião, o mais antigo Bloco de Homens vestidos de Mulher é tradição na folia da cidade, arrebanhando milhares de pessoas anualmente.

Tudo começou com a Turma de Verão que habitava e frequentava a cidade durante a estação mais desejada do ano e que todo Carnaval, via o folião mais animado da cidade, o famoso “Chico Tanque”, desfilar vestido de mulher durante os quatro dias da festa de Momo.

A Turma de Verão era composta por Turistas, na sua maioria, alguns Veranistas e uma boa porcentagem de moradores locais, que enfrentavam os bancos universitários durante o ano e passavam suas férias na Capital do Litoral Norte.

Maria Divórcio

O início de tudo se deu em Fevereiro de 1983, quando a
Turma de Verão decidiu sair vestida de mulher no Carnaval e o Sábado, o primeiro dia ainda era aquele na época, foi escolhido para iniciar a brincadeira, que se tornou um fiasco.

O fiasco se explica pois ficou marcado de todos saírem vestidos de mulher às 17 horas, em frente ao Postinho da Praça, localizado na esquina de Altino Arantes com Sebastião Mariano Nepomuceno. O dia era de sol forte, muito calor, praia cheia e animada e depois de muito se esbaldar, cada um à sua maneira recuperou a energia gasta pela manhã com um bom almoço e um respeitado cochilo a tarde.

Garanhões do Passado

Chegada a hora, os que ainda estavam dormindo repartiram com os desistentes o interesse pela nova brincadeira e os poucos que lembraram foram a praça e viram seis enormes amigos, todos descendentes de Alemães, Turistas que anualmente visitavam a cidade, vestidos como mulheres a espera do restante dos amigos. Foi a intenção malograda mais divertida que se tem ideia na história da cidade.

Cabe aqui citar o nome de alguns dos fundadores, que a partir do ano seguinte, dividiram a função de fundar o Bloco das Piranhas: Carlos Santana, Jaime Santana, Rodolfo e Luís Fernando de Sá, Werner, Carlos Imparato, Airam Salles Costa, Glauro Camilo, este Redator que vos escreve e outros tantos memoráveis amigos e fundadores.

Futebol Feminino ou Meninas como Jogadores?

De 1984 em diante e mediante uma sonora bronca levada pelo Germânico grupo de Travestidos, iniciou-se o Desfile do Bloco das Piranhas. Como o número ainda era pequeno o grupo saia na caçamba dos carros dos amigos e isso gerou alguns problemas, seja pela infantilidade de alguns, a ignorância de outros e a idiotice da maioria e isso gerou muitas brigas, com algumas pessoas chegando a se machucar seriamente, ao longo dos anos. O roteiro no início era pelas ruas do centro.

Os anos se passaram e como forma de dar um apoio estrutural ao bloco, o pessoal do Sigura Meu Louro, outro bloco tradicional da cidade, deu a ideia de sair da cabeceira da ponte do Rio Santo Antonio. Para reunir o máximo de pessoas, os convites e a convocação eram feitos na Praia de Martim de Sá, nos dias que antecediam a mais importante festa pagã do país.

Mulher Maravilha Tupiniquim

Com o tempo centenas e até milhares de rapazes saíam anualmente vestidos de mulher para festejar o Carnaval. Como a Avenida da Praia ainda não era duplicada foi feito um pacto com a Polícia Militar de que usaríamos metade da pista para não atrapalhar tanto assim o caótico trânsito que se formaria. O trajeto era simples e passava por ruas estratégicas do centro da cidade. Tudo começava na Ponte do Rio Santo Antonio e seguia pela Avenida da Praia até a esquina com a rua Paul Harris, onde convergia para a esquerda, cruzava a Avenida Anchieta e dobrava a direita na Altino Arantes, parando em frente a Lanchonete Estrela, para uma pausa e um repique da bateria. Alguns minutos depois seguia por mais um quarteirão até entrar a direita na Rua Santa Cruz, descendo até a Avenida da Praia novamente e nela virando a esquerda até as arquibancadas do Carnaval, finalizando o desfile.

Em todo trajeto os participantes eram orientados a não exceder nas brincadeiras e a evitar o máximo de confusão. Nas convergências e cruzamentos os membros que participavam da organização fechavam o trânsito, cuidando da segurança de ambos, motoristas e travestidos. Se você pensava que tudo acabava no Sábado está redondamente enganado, pois na Segunda-Feira tinha o Futebol de Mulheres, ou seja, aqueles que desfilaram no Sábado arriscavam jogar uma bola de saia, maquiados, com peruca e enchimento nos seios. Com o tempo o Futebol foi perdendo o interesse, visto que a praia e a cachaça eram cada vez mais intensas, o que desmotivava os participantes. Seja no Sábado como na Segunda-Feira, os participantes eram acompanhados de suas respectivas famílias, namoradas, paqueras ou simples observadores.

Mãe cuidando da cria

Com o tempo também algumas mulheres arriscavam sair vestidas de homens. Era o início da igualdade do sexo feminino e tudo foi muito bem recebido pelos participantes masculinos. Nos anos 90 a bateria foi trocada por um Trio Elétrico cedido gentilmente pela Prefeitura e a cada ano, aumentava mais e mais o número de participantes.

Com isso, passaram-se 35 anos de folia e daquele fevereiro malogrado, onde seis rapazes foram o tema do sarro e de muita gozação naquele Sábado de Carnaval. As fotos deste texto mostram que ao longo dos anos o Bloco equilibra tanto os personagens tradicionais como os mais atuais!!!

E que venham mais 35 anos!!!

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