*Sérgio de Paula
Meu jornalismo sempre teve por princípio a frase de Tolstói: ” Se queres cantar o mundo, cante a tua aldeia”. Infelizmente, sou um homem de muitas aldeias. Pequenas como Lins e grandes como São Paulo. Ricas como Campinas e São José e molhadas e ao mesmo tempo secas como Caraguatatuba.
Apesar de tão díspares, nestes mais de 45 anos de jornalismo, para todas elas eu soube cantar suas histórias com fervor. Soube dizer seus dramas e soube compor sua face o mais real possível.
Sim, eu soube.
HOJE, TUDO QUE SEI
Passados tantos anos e tantas palavras e fatos impressos, pego-me pensando se não estive sempre errado em minha narrativa.
Não deveria, na verdade, ter seguido a máxima de Sócrates, de que “tudo que sei é que nada sei” e calado a boca, solenemente, como faz uma boa parte da mídia atualmente?
Porque, senão, vejamos.
DE QUE ADIANTA
Hoje, enquanto parte da mídia cafajesteia no puxa-saquismo diário, outra parte finge que não vê – ou, o que é pior não sabe! – o que ocorre à sua volta.
Em termos de informação: sabemos por exemplo, que o mato, durante o verão, cresce 8 milímetros por dia, no centro ou na periferia das ruas de qualquer cidade do Litoral Norte. A coisa anda tão surreal que, já já, vai ter matéria dizendo que mato é positivo porquê é prova incontestável de preservação da Mata Atlântica.
Eu exagero?
VOCÊ SABIA QUE …
Caraguatatuba está reescrevendo partes de sua história. O velho conceito de que os índios Gueromimis são os povos originários da cidade já caiu por terra.
Um excelente trabalho da Fundacc, através de Denise Lemes – historiadora e responsável pelo arquivo público municipal – mostra que os povos originários de Caraguatatuba eram os Sambaquieiros!
Graças ao trabalho da arqueóloga, historiadora e paleógrafa Cintia Bendazolli, que tem estudos profundos sobre o passado do nosso Litoral Norte, hoje se sabe que a história de Caraguatatuba remonta mais de mil anos antes da chegada do homem branco por estas plagas. Diante disso, o mural do MACC, por exemplo, que conta a história dos antigos povos da cidade, terá que mudar. Livros terão que ser reescritos. Mas quem se importa com notícias desse calibre no jornalismo e assessorias?
SER OU NÃO SER
Saber onde a notícia está, todos sabem ou, pelo menos, deveriam saber. Que é preciso contar a veracidade da aldeia, também. Mas prevalece mesmo – exceto raras publicações- o velho “tudo que sei é que nada sei”, nas meras e fumegantes rotativas digitais.
Resta-me a cena 1, ato 3, do monólogo Hamlet de Shakespeare como consolo. Afinal, “ser ou não ser, eis a questão”, nunca me afetou profissionalmente. Nesse caso, como jornalista, nunca questionei: sei que sou.
Nunca tive dúvida alguma sobre isso, mesmo quando era um pequeno entregador de jornal.
E hoje, tantos anos depois, menos dúvida ainda, sendo um mero jornassauro na ativa.
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.