Estamos Lendo ou Apenas Passando os Olhos?

*Jenny Melo

 

Recentemente, me peguei refletindo sobre algo interessante: quando foi a última vez que terminei um livro e passei dias ponderando suas ideias? Aquele tipo de leitura que nos cativa, que se torna tema de conversa e que altera um pouco a maneira como percebemos as coisas. Parece que esses momentos têm sido menos frequentes, não?

A verdade é que seguimos lendo — possivelmente até mais do que antes. Porém, há uma distinção entre consumir histórias avidamente e realmente vivenciá-las. Entre concluir a leitura de um livro e ser impactado por ele. E tenho a sensação de que, sem perceber, substituímos uma coisa pela outra.

Quando tudo começa a soar excessivamente familiar

Você já teve a impressão de estar lendo um livro novo, mas com a certeza de que já conhece a história? O romance que replica exatamente a trajetória do anterior, porém com nomes distintos. A fantasia que retrata a mesma trajetória do herói pela milésima vez. O suspense cujo desfecho você consegue prever na quinquagésima página.

Não estou afirmando que essas histórias sejam ruins. Às vezes, tudo o que queremos é a segurança do que é previsível, e isso é normal. O problema surge quando isso se torna norma e a originalidade passa a ser exceção. É como comer a mesma comida sempre — pode até ser saborosa, mas chega um momento em que esquecemos que há outros sabores.

O mercado editorial encontrou fórmulas que são eficazes e realmente funcionam. São as receitas experimentadas: um pouco de romance, uma boa dose de conflito familiar, uma pitada de reviravoltas (mas não muitas) e está feito. Sucesso assegurado. Porém, algo se perde no decorrer desse processo. O inesperado. O perigo. Aquela impressão de “nossa, nunca tinha considerado dessa forma”.

O que ocorreu com a nossa forma de ler?

Porém, não é apenas a produção literária que se transformou. Também mudou a forma como lemos. Estamos rodeados de resumos, análises em vídeo e debates nas redes sociais que revelam o enredo completo. Milhares de histórias nos são apresentadas sem que, de fato, tenhamos lido nenhuma delas.

E, a propósito, não estou fazendo um discurso do tipo “no meu tempo era melhor”. A questão não é de nostalgia. Trata-se do que ganhamos e do que perdemos nessa troca. Quando lemos apressadamente, seja por pressão de prazos ou apenas para avançar para o próximo título, negligenciamos o que realmente torna a leitura significativa: o tempo necessário para processar, conectar com nossas vivências e permitir que as palavras realizem seu trabalho silencioso dentro de nós.

Ler sempre foi algo além do simples ato mecânico de decifrar palavras. Trata-se de um diálogo. O autor sugere, mas somos nós que damos sentido, que preenchemos os vazios. Esse processo requer tempo, silêncio e uma disposição para se permitir ser afetado. E tempo é exatamente o que está em falta.

Onde foi parar a pesquisa e a profundidade?

Há outro aspecto que me perturba: a sensação de que muitas histórias são escritas apressadamente. Sem a devida investigação minuciosa, sem um verdadeiro aprofundamento nos assuntos que pretendem abordar. Parece que um conhecimento superficial e uma pesquisa rápida no Google seriam suficientes para abranger universos inteiros.

É evidente que nem todo livro precisa ser um doutorado. Porém, há uma distinção entre simplicidade e simplismo, entre tornar algo compreensível e menosprezar quem está lendo. As histórias que atravessam gerações sempre confiaram na inteligência de seus leitores. Elas acreditavam que éramos capazes de acompanhar e evoluir junto com o texto.

 

(Este Texto tem continuação) Beijos da Jenny e Até.

 

*Jenny Melo – Escrevo minha história aos poucos, entre silêncios, livros e abraços.
Sou mãe, esposa, futura jornalista… e, acima de tudo, alguém que encontra sentido nas palavras e abrigo nas páginas.
Leio o mundo com o coração aberto — porque, pra mim, a vida é feita de histórias que a gente vive e outras que a gente escolhe amar.

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