Por Beá Moreira

 

Embalados em serragem, juta e jornal, vinham da cidade grandes blocos de gelo, que a família Moreira preparava, misturando xaropes de frutas, leite e outras especiarias. Uma coisa doce, deliciosa e refrescante, que chamavam de “sorvete”. Era vendida no armazém dos Moreira, e já fazia grande sucesso, tornando-se o programa de domingo.

Todos se reuniam nas imediações do armazém, sentados sob as árvores frondosas, e ali as pessoas se conheciam, se reviam e se atualizavam.

Se realizavam negócios, compromissos, insinuações… E promessas de casamento!

O atento pai de Luísa sabia que estava chegando a hora de sua filha seguir seu próprio caminho, construir sua família.

Rigoroso com os valores que professava, o velho não queria que a menina se envolvesse com nenhum tipo de rapaz que não estivesse de acordo com seus princípios.

A família Moreira tinha muitos filhos, todos bem-educados e trabalhadores, porém, nenhum deles era inclinado ao trabalho na lavoura, e para ele, Seu Francisco, o trabalho braçal dignificava o homem.

Mas, nesse domingo, algo aconteceu. Assim que chegaram à venda, conversando na soleira da porta, Luísa, distraída com seu sorvete, que grudava na língua e soltava “fumaça”, não reparou no pequeno degrau e, tropeçando num passo em falso, voou por sobre a banqueta que estava bem à sua frente, e parou, com o sorvete esmagado entre seu peito e o peito de um rapaz, que aturdido, olhava para ela, num misto de susto e diversão.

Assim que levantou os olhos, e viu o verde azulado faiscando naquele olhar, Luísa percebeu que sua vida iria mudar, a partir dali.

Os dois olharam-se fixamente, por alguns segundos, que para Luísa pareceram horas, e, embaraçada, ela se afastou, mas, sem desviar o olhar, que ele sustentou, abrindo-lhe um sorriso.

Embaraçada, menos pelo tropeção do que pelas sensações inexplicáveis que sentia, naquele momento, afastou-se, mas, bem humorada, deu uma risadinha e dirigiu-se até a bica d’água que corria ao lado da venda.

A água fresca, que vinha da serra através de um intrincado sistema de dutos de bambu, muito bem cuidado, era adocicada e cristalina. Abastecia toda a vila e ainda formava um lindo riacho, que seguia borbulhante, em direção ao mar.

Aproveitando-se da desculpa de estar toda grudenta do sorvete que lhe lambuzara boa parte do vestido, Luísa tirou o delicado avental português, lindamente bordado, herança preciosa de sua mãe, e que viera na bagagem da família, o qual ela sempre usava com cuidado e orgulho, e o mergulhou no riacho, aproveitando, também, para molhar os pulsos e a nuca. Não queria que percebessem o calor e a vermelhidão que subiram por seu corpo todo, depois do encontrão. Sabia que seus irmãos e seu pai não tiravam os olhos dela. Sentiu-se envergonhada, mas não soube exatamente por quê.

Enquanto observava o pai, numa longa conversa com o compadre Moreira, e seu avental secava ao sol, pendurado numa cerquinha, Luísa pode observar que o rapaz, que a havia amparado na queda, estava de camisa trocada e cuidava da mercadoria da venda, conferindo os caixotes e fazendo anotações.

Quando Luísa e seu pai se despediram, a mocinha pode ver que o rapaz a olhava por entre as pilhas de caixas enormes e bem empilhadas.

Ela fora atraída por aquele olhar, que brilhava de longe!

Recatada e tímida, apesar de autêntica e espontânea, Luísa sorriu, e virou-se, segurando a mão do pai, como uma menininha, e seguiu o seu caminho de volta à chácara, balançando atrás de si não apenas as grossas e pesadas tranças negras, mas, também, um certo coração.

 

 

Beá Moreira é Cientista Social, e comenta sobre o cotidiano e suas nuances, de forma descontraída e despretensiosa, buscando fazer do leitor de qualquer idade, um companheiro de bate papo.

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