* Sérgio de Paula
Às vezes me falta uma palavra, sabe? No meio de um pensamento, num embate com amigos, numa calorosa discussão de trânsito entre mim e o motorista errado. E essa palavra – essa bendita e maldita palavra! – Se esconde nas trincheiras do pensamento e fica ali, quieta e muda. Indizível, por assim dizer. Não a encontro, nem que a vaca tussa. E o tempo passa. E fico com um acre sabor na boca…
E essa ausência substitui o pensamento. De tal sorte, que passo a esmerar o raciocínio na sua procura.
É como uma mulher que você nunca tirou da cabeça e, de repente, ela some num passe de mágica. Seria o esquecimento puro e simples do amargor do tempo? Ou melhor, seu desaparecimento para as catacumbas da inexpressividade? Talvez fuja destrambelhada para um local protegido contra as intempéries ou, somente a chegada do nada numa cabeça que já agasalhou um naco grande de Houaiss em sua plenitude?
Porque uma palavra de importância vital não pode se dar ao luxo de simplesmente sumir, como somem as promessas de campanhas de alguns políticos tupiniquins, gente! Nem como dinheiro no bolso do aposentado no final do mês, que certo candidatinho da direita promete deixar de reajustar caso eleito…. Não senhor!
Palavras que a gente glorifica não pode nos deixar a ver navios, como uma libélula esvoaçante que sai para pousar em flores e nunca mais retorna. Ainda se fosse uma Murucututu amazônica ainda vá lá, que nunca esteve cá perto da gente. Mas palavras como… (qual é mesmo a palavra meus Deus?) Não. Nunca!
Algumas palavras nunca saem da gente. Como saudade. Porque que saudade nunca vai embora? Tá sempre por perto, mesmo quando a gente quer distância dela? Quer vê-la bem longe.
Outra que sempre está por perto é decepção. Assim como amargura, tristeza, melancolia…
Na verdade, aposentado, morando na praia, com 71 anos de vida, um vinho nas mãos e uma ideia na cabeça, perco-me correndo atrás de uma palavra que me resuma, que faça com que eu construa algo sólido, desejando uma quinta-feira harmoniosa e feliz para meus parcos leitores. Mas algo não me permite. Sim! Lembrei-me da palavra que queria usar, traduzir-me e que estava embotando minha parva e apequenada memória.
– Tédio.
Eis a palavra que some da gente, mesmo estando presente.
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora e do Expressão Caiçara. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.