*Jenny Melo
Durante dez dias, de 4 a 13 de setembro, o Distrito Anhembi transformou-se, em São Paulo, do simples pavilhão de eventos ao maior centro de encontro entre livros e pessoas de toda a América Latina. A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo — a terceira maior do mundo neste segmento — atraiu milhares de pessoas em torno de uma proposta simples e persistente: a crença de que a leitura ainda é relevante, especialmente quando compartilhada com outros leitores.
Esse dado é o que sintetiza a atualidade: a Bienal deixou de ser “feira de livros” há muito tempo. Seguindo sua missão de agitar a cadeia editorial — e com muito vigor —, já não é apenas a compra de novos livros o que lota o Anhembi. É a oportunidade de encontrar pessoalmente o autor que até então só havia sido visto na lombada de uma edição de capa dura, de escutar um quadrinista narrar a origem daquele traço característico, de observar o próprio filho perceber que um livro também pode ser uma fonte de tinta, um ateliê de escrita, um espaço para discussões e uma fila para autógrafos.
O tema oficial deste ano foi “Palavra e Futuro”, e a programação procurou concretizar esse título: ocorreram debates sobre inteligência artificial aplicada à escrita e à acessibilidade editorial, espaços dedicados à literatura indígena e afro-brasileira, uma área batizada de “Palavra Digital” para discutir audiobooks, e-books e autopublicação, além de oficinas de escrita criativa e sessões de ilustração ao vivo pensadas especialmente para crianças e adolescentes. É a Bienal tentando, de fato, dar uma resposta a uma questão que hoje persegue todo o mercado editorial: de que maneira criar leitores em uma geração que já nasceu com uma tela nas mãos?
A proposta que o evento apresenta não é optar por um lado — papel ou tela —, mas sim integrar ambos de maneira natural. Um jovem pode ir de uma palestra sobre IA e escrita literária para uma fila de autógrafos de um autor de romance juvenil e, em seguida, atravessar a seção de quadrinhos para encontrar, no mesmo corredor, uma editora independente da qual ele nunca tinha ouvido falar. É essa transição — entre tipos, estilos e épocas — que eleva a Bienal a algo que vai além de uma simples exibição comercial.
Porque, sejamos honestos, o fascínio nunca se limitou apenas à montanha de livros em promoção. É no ato de observar um escritor que apenas conseguíamos imaginar sentado à mesa, respondendo às perguntas de pessoas comuns. Está na criança que entra sem saber o que deseja e sai com um livro debaixo do braço porque alguém, naquele lugar, conseguiu recomendar o livro adequado. É no leitor solitário que, durante uma tarde, percebe que há milhares de outros iguais a ele vagando pelo mesmo pavilhão.
Do ponto de vista puramente econômico, os números continuam relevantes: editoras grandes e pequenas usam a Bienal como vitrine de lançamentos, agentes literários fecham negócios, e a cadeia produtiva do livro — impressão, distribuição, direitos autorais — gira em ritmo acelerado durante esses dez dias. Mas tratar o evento só por essa métrica seria perder o essencial. A Câmara Brasileira do Livro, que promove a Bienal, já resumiu bem o espírito da coisa: mais do que um evento, é um movimento em torno da leitura como ferramenta de transformação — individual e coletiva.
Talvez seja esse o verdadeiro destaque da edição de 2026: não uma atração específica, nem um autor internacional, nem um número de visitantes. É o fato de que a Bienal amadureceu junto com seu público. Deixou de vender apenas livros para vender encontro — entre leitor e autor, entre gerações, entre quem já ama ler e quem ainda está decidindo se vai amar. E é justamente por isso que, todo ano, mesmo quem já foi dez vezes volta a atravessar o Anhembi como se fosse a primeira.
Beijos da Jenny e Até.
*Jenny Melo – Escrevo minha história aos poucos, entre silêncios, livros e abraços. Sou mãe, esposa, futura jornalista… e, acima de tudo, alguém que encontra sentido nas palavras e abrigo nas páginas. Leio o mundo com o coração aberto — porque, pra mim, a vida é feita de histórias que a gente vive e outras que a gente escolhe amar.