*Jenny Melo
A internet fez algo que poucas invenções conseguiram: aproximou quem escreve de quem lê. Autores independentes, antes fadados às gavetas e às recusas de editoras, hoje encontram leitores do outro lado do mundo com um clique. Comunidades inteiras nasceram ao redor de livros, resenhas e recomendações, e o acesso à literatura — mesmo imperfeito, mesmo desigual — alcançou gente que talvez nunca tivesse entrado numa livraria. Isso é, sem dúvida, uma conquista. Mas é só metade da história.
A outra metade é mais desconfortável de contar.
Porque junto com essa aproximação toda, vieram também a comparação e a pressão. Quantos livros você leu esse mês? Quantos esse ano? A leitura, que deveria ser um exercício silencioso e pessoal, virou meta. Virou planilha. Virou uma corrida em que se comemora o número, não necessariamente o que ficou depois da última página. E quando ler se transforma em competição, o que sobra da experiência?
Essa é a pergunta que a cultura da produtividade literária evita fazer.
Nas redes, um livro grosso na estante, uma pilha bem-organizada, um unboxing de edições especiais — tudo isso rende mais engajamento do que uma reflexão de duas linhas sobre um personagem que incomodou, sobre uma frase que doeu de um jeito bom. A estética da leitura, cuidadosamente enquadrada, muitas vezes fala mais alto do que a leitura em si. E aos poucos, sem que a gente perceba direito, começamos a ler pensando em como aquilo vai aparecer depois — mais para ser mostrado do que para ser sentido.
Não é exagero dizer que isso empobrece o debate. Discussões mais densas, que pedem tempo e disposição para discordar, perdem espaço para conteúdos rápidos, visualmente agradáveis, fáceis de curtir e passar adiante. A profundidade exige pausa; o algoritmo pede velocidade. E entre os dois, quem geralmente perde é a pausa.
Ainda assim, seria injusto — e um tanto ingênuo — jogar toda a culpa nas redes sociais, como se elas fossem vilãs isoladas de um problema que sempre existiu, de formas diferentes, em outros tempos. A vaidade em torno da leitura não nasceu com o Instagram; ela só ganhou um palco mais visível e mais rápido. O que muda agora é a escala: antes, comparar-se com o vizinho que lia mais; hoje, comparar-se com milhares de perfis ao mesmo tempo, numa rolagem infinita que nunca dá trégua.
Talvez o desafio não seja escolher um lado — recusar as redes ou se entregar totalmente a elas —, mas aprender a atravessar esse território com mais consciência. Usar o que a internet tem de melhor, que é essa capacidade rara de juntar gente e livros que talvez nunca se encontrassem, sem esquecer que a leitura, no fim, acontece num lugar que nenhuma foto alcança: dentro de quem lê.
Porque nenhuma legenda bem escrita substitui o silêncio de uma boa história sendo absorvida devagar. E é esse silêncio, cada vez mais raro, que talvez valha a pena proteger.
Beijos da Jenny e Até.
*Jenny Melo – Escrevo minha história aos poucos, entre silêncios, livros e abraços.
Sou mãe, esposa, futura jornalista… e, acima de tudo, alguém que encontra sentido nas palavras e abrigo nas páginas.
Leio o mundo com o coração aberto — porque, pra mim, a vida é feita de histórias que a gente vive e outras que a gente escolhe amar.