* Sérgio de Paula
Há sobre a palmilha do nosso caminhar, terras raras que não mais reconhecemos. Ainda que os seus cheiros estejam a nos impregnar em dias de chuva, que árvores e hortaliças tragam aos lábios os gostos de suas profundezas, que o vento venha fustigar nossos rostos com ínfimas partículas do seu todo, ainda assim, há terras raras que já não estão sobre nossos pés e que, muito dificilmente haverá de nos devorar as carnes.
Há em nossas memórias terras pisadas por nossos país, avós, bisavós que – embora estando dentro de nós e nos glorifiquem em consciência com suas lembranças – estão fora de nossas percepções pela distância e longitude dos caminhos. Minha avó materna, por exemplo, andou pelas terras de Sevilha. Meu avô por terras fluminenses. Minha mãe, por caminhos de Minas.
São estas terras raras que eu gostaria de conhecer. Por certo, acenderia dentro de mim alguma luminosidade da lembrança contida em meu DNA, e talvez eu ficasse feliz por um instante. Me encantasse com a maciez da terra, com o farfalhar da areia, com o ardor das pedras queimadas pelo fustigante sol.
Sim, queria que meus passos pousassem eternos onde os passos dos meus ancestrais já pousaram, porque, por certo, eu teria um ímpeto do que eles tiveram e – quem sabe – poderia entender num átimo, o que eles sentiram naqueles momentos.
Mas há tantos milhões de seres na composição de meu DNA que, por certo, eu já pisei em terras raras que eles também pisaram. Alguém da minha ancestralidade, por certo já pisou em Paris. Talvez Barcelona, porque não Madrid ou Roma, quem dera Florença, Pisa, Londres. Mas não acredito que dentro de minha composição tenha alguém com o pé no Marrocos, por exemplo. Ainda menos em Marrakesh.
Com certeza não. Mas tô indo lá, para ver se algo novo me pulsa e se encontra, meus cansados pés, a terra rara da lembrança que compõem a esperança de caminhar onde o emaranhado do meu ser pode já ter ido um dia.
Tento fazer dos meus passos uma volta, nunca uma ida.
Sei que trago dentro de mim muitos passos por este planeta chamado terra. Por isso, conclamo as minhas cansadas pernas:
-Andemos.
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.