*Jenny Melo
Todo mundo tem uma opinião sobre a Europa antes mesmo de chegar lá. Sobre a literatura europeia não é diferente — todo mundo acha que já conhece. Os clássicos da escola, os nomes no currículo, as capas surradas que ficam na estante mais por status do que por amor.
Mas existe uma Europa literária que ninguém te apresentou direito. Aquela que questiona, que incomoda, que ri de si mesma e chora sem pedir licença. É essa que a gente veio buscar nesta edição.
Deixa o mapa de lado. Abre o livro.
Karl Ove Knausgård (Noruega) — Minha Luta, Vol. 1
Um homem escreve sobre a morte do pai com uma honestidade tão brutal que chega a ser desconfortável. Knausgård não narra — ele confessa. Seis volumes de autobiografia em que o autor expõe a si mesmo sem filtro, sem piedade e sem permissão. O resultado é um dos projetos literários mais polarizadores e viciantes do século XXI. Ou você larga na terceira página ou não consegue parar.
Elena Ferrante (Itália) — A Amiga Genial
Duas meninas crescem juntas num bairro pobre de Nápoles nos anos 1950 e se tornam o espelho uma da outra — o tipo de amizade que é também rivalidade, dependência e amor. Ferrante, que escreve sob pseudônimo e jamais revelou sua identidade, criou uma das sagas mais viciantes da literatura contemporânea. Quatro volumes que passam como trem bala. Você vai terminar o primeiro e já precisar do segundo.
Franz Kafka (República Tcheca) — A Metamorfose
Gregor Samsa acorda uma manhã transformado num inseto monstruoso. A família precisa lidar com isso. Kafka escreveu este conto em 1915 e ele nunca parou de ser atual — porque nunca deixamos de nos sentir, em algum momento, como Gregor: inúteis, incompreendidos, um fardo. Pequeno o suficiente para ler em uma tarde, grande o suficiente para assombrar a vida inteira.
Virginie Despentes (França) — Vernon Subutex, Vol. 1
Um ex-dono de loja de discos fica sem dinheiro, sem apartamento e vai dormir no sofá de conhecidos. O que começa como a história de um homem à deriva se transforma num retrato feroz da França contemporânea — seus medos, seus preconceitos e sua hipocrisia. Despentes escreve como quem não tem nada a perder, e é exatamente isso que faz a leitura ser tão eletrizante.
Olga Tokarczuk (Polônia) — Os Errantes
Vencedor do Nobel de Literatura em 2018, este livro não tem enredo no sentido tradicional — ele tem movimento. Fragmentos, histórias, reflexões sobre corpo, viagem e pertencimento que se conectam de formas que você só percebe quando fecha o livro. Tokarczuk é uma das vozes mais originais da literatura mundial, e Os Errantes é a porta de entrada perfeita para o seu universo.
Sally Rooney (Irlanda) — Pessoas Normais
Connell e Marianne crescem na mesma cidade pequena da Irlanda, se atraem, se afastam, se encontram de novo — e assim por diante, durante anos. Parece simples. Não é. Rooney escreve sobre poder, desejo e classe social com uma precisão que dói, e faz isso com uma prosa limpa que te engole inteira. Um dos romances mais discutidos da última década, e com razão.
A Europa literária não é um monumento — é uma conversa que nunca termina. O que esses autores têm em comum é a recusa em confortar o leitor. Eles preferem inquietar, provocar, arranhar. E é exatamente isso que a boa literatura faz.
Na próxima edição, nossa jornada chega ao Oriente Médio — uma região que o mundo olha com muito barulho e lê com muito silêncio. Vamos mudar isso.
Até lá, keep reading.
“A literatura é aonde eu vou para explorar as alturas e profundezas mais perigosas e ao mesmo tempo mais livres da experiência humana.” — Salman Rushdie
Beijos da Jenny e Até.
*Jenny Melo – Escrevo minha história aos poucos, entre silêncios, livros e abraços.
Sou mãe, esposa, futura jornalista… e, acima de tudo, alguém que encontra sentido nas palavras e abrigo nas páginas.
Leio o mundo com o coração aberto — porque, pra mim, a vida é feita de histórias que a gente vive e outras que a gente escolhe amar.