* Sérgio de Paula
Em Lins, onde quer que aparecesse, Waldirene brilhava.
No carnaval de rua da 21 de Abril — naquele tempo saudoso dos mestres Paíca e Macalé — ou nas sessões de sábado e domingo do Cine São Sebastião, ou cine Lins, ela preenchia todos os espaços.
Tinha um corpo escultural, o sorriso franco, a voz suave como música. Não havia olhos, naquela pequena cidade, que não se voltassem para ela quando passava garbosa com seus saltos altos.
Era alta, loira, elegante. Nunca nos falamos. Mas eu a observava sempre, com surpresa e curiosidade, tentando compreender os mistérios e segredos que homens e mulheres murmuravam à boca pequena.
Eu tinha 15 anos quando a vi pela primeira vez e ainda não entendia os mistérios da vida.
Soube no dia 19 que Waldirene morreu em Ubatuba, aos 80 anos, vítima de insuficiência respiratória. Seria enterrada dia 20 de maio, em Lins, sua cidade natal.
Waldirene Nogueira nasceu em 1945 e foi registrada como Waldir Nogueira. Em 1969, começou a ser acompanhada pela endocrinologista Dorina Epps, no Hospital das Clínicas de São Paulo e acabou operada em 1971, após reconhecimento de sua transsexualidade.
A cirurgia de redesignação sexual foi realizada em dezembro de 1971, em São Paulo, pelo cirurgião plástico Roberto Farina. O procedimento é o primeiro do tipo realizado no Brasil.
Cinco anos após a operação, quando tentava alterar seus documentos, ela foi levada de forma coercitiva ao Instituto Médico Legal (IML), onde passou por exames invasivos e foi fotografada nua. Seu médico Roberto Farina acabou condenado a dois anos de reclusão por ” lesão corporal gravíssima” em razão da cirurgia.
Ela sempre foi muito humilhada por alguns dos seus conterrâneos, além de ser desrespeitada por mulheres que invejavam sua estonteante beleza.
Apesar de tudo que passou, defendeu enfaticamente o cirurgião que a operou. Depois da cirurgia, disse se sentir livre e que finalmente ganhava asas para voar.
Deve estar voando agora para o céu, como um anjo que caiu em minha triste torrinha, com sua beleza, suas asas e seu sexo indefinido…
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.