*Stefan Massinger

 

Assim como no Brasil, os primeiros exemplares de vitis vinífera, a uva própria para produção de vinho, chegaram na Argentina no início do século XVI junto com os seus colonizadores espanhóis. Além da tradição, que o alto escalão do exército colonizador e os pesquisadores tomam vinho em cada boa refeição, a igreja católica precisava do vinho como ingrediente crucial nos cultos.

No entanto, foi só em 1551 que o cultivo da uva se espalhou por toda a região, sendo mais prático e mais barato, que esperar para a próxima caravela trazendo o vinho da Espanha em meios de transportes meio inadequadas. As condições climáticas e o solo dos arredores dos Andes favoreceram muito a agricultura dos vinhedos e, impulsionada pelos monastérios que precisam produzir vinho para a celebração das missas, não demorou muito e os primeiros vinhedos se espalharam aos pés das cordilheiras dos Andes.

Mas além de espanhóis e a igreja católica outros, novos imigrantes europeus na Argentina tinham um papel fundamental no estabelecimento da cultura de vinhos no nosso país vizinho.

No século XIX chegou à região uma nova onda de imigrantes europeus que trouxeram em suas bagagens novas cepas estrangeiras e muita tradição na produção de vinhos, à frente de muitos, os italianos. Os europeus recém-chegados encontraram em Los Andes e no Vale de Rio Colorado os locais ideais para começar o seu próspero cultivo, e ali se estabeleceram.

Entre 1850 e 1880 a produção de vinhos argentinos começou a mudar de forma. Com a integração do país à economia mundial, a chegada da industrialização e a abertura de múltiplas ferrovias cortando a região, o que antes era uma agricultura voltada para a produção de vinhos tomou forma de uma indústria do vinho.

Podemos dizer que neste ponto a Argentina se desenvolveu diferentemente do Brasil. No século XIX os nobres brasileiros e os oficias de grande patente costumavam brindar em ocasiões especiais com vinho (até importado da Argentina), mas no país de lós Andes, por causa da forte tradição europeia, que os argentinos mantem até hoje, vinho nunca saiu do cardápio do povo. A industrialização apenas ajudou fundar algo com mais força no país.

Em 1853 foi criada a Quinta Normal de Agricultura de Mendoza, a primeira escola de agricultura do país, por meio da qual novas técnicas de cultivo de vinhedos foram implementadas na região, como o uso de máquinas e modernas metodologias científicas.

Para se ter uma ideia do crescimento da produção de vinho argentino nessa época, em 1873 o país contava com apenas 2.000 hectares de vinhedos, enquanto em 1990 a área cultivada chegou a 210.371 hectares. Leia-se em um século a área produtiva do vinho ficou aproximadamente 100 vezes maior…

É importante frisar que, diferentemente do Brasil, a Argentina sempre manteve uma forte identidade europeia e, com ela, o consumo de vinho pela sua população era de grandes proporções. Nos anos 60 do século XX a produção de vinho para o mercado interno era bem estruturada, com amplas redes de distribuição e comercialização. O consumo per capita na época chegada a impressionantes 90 litros por habitante enquanto Brasil nem estava mais no mapa do mundo dos vinhos como produtor ou consumidor significativo.

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo embaixador do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, através da sua empresa Marevino. Também administra um curso on-line, tem um podcast e faz lives educativas mensais. Atua também como consultor independente de negócios.

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