*Jenny Melo
Estou construindo minha biblioteca aos poucos, e confesso que às vezes paro no meio da tarefa só para olhar em volta. Não é vaidade de colecionador. É outra coisa, mais quieta: a sensação de estar erguendo, prateleira por prateleira, o único refúgio que sempre foi realmente meu.
Sonhei com isso por muito tempo antes de começar a torná-lo real. Não sonhava exatamente com uma coleção — sonhava com o que ela permitiria. Poder olhar para aquela parede um dia e reconhecer ali uma viagem inteira, uma pessoa que cruzou meu caminho, uma cultura que aprendi a enxergar de um jeito que antes eu nem sabia que existia. Tudo isso sem sair de casa, sem sair, às vezes, nem da própria cadeira. Cada livro que coloco na estante carrega mais do que a história escrita em suas páginas. Carrega quem eu era quando o li, o que eu estava atravessando naquele momento, quem me indicou, onde eu estava sentado quando virei a última página.
Há algo nisso que nenhuma tela consegue me dar, por mais que eu tente explicar. Não é apego ao papel por saudosismo. É que o livro fica ali, ocupando um espaço físico, esperando — e essa espera tem um peso que a internet não tem. Ninguém me sugere um livro por algoritmo com a mesma delicadeza com que a minha própria estante me sugere, sem palavras, o que eu preciso naquele instante.
Gosto de lembrar de uma frase de Umberto Eco, ainda que eu a repita à minha maneira: uma biblioteca bem formada funciona como uma farmácia. Ela guarda, quase em silêncio, o remédio certo para cada momento — mesmo antes de eu saber que vou precisar dele. Isso me conforta mais do que eu esperava. Significa que não estou escolhendo livros só para o que sou hoje. Estou escolhendo também para quem ainda vou ser daqui a alguns anos, para a pessoa que um dia vai precisar exatamente daquela frase, daquele personagem, daquela ideia que hoje me parece só mais um livro qualquer na prateleira. Montar essa biblioteca é, no fundo, um jeito de confiar no meu próprio futuro.
Por isso gosto tanto de ir até a estante sem saber exatamente o que procuro. Não é um título específico que busco — é um encontro. E os encontros que mais importam na minha vida nunca foram planejados. A mão hesita entre duas lombadas, escolhe uma sem saber bem por que, e só depois, lendo, entendo que não foi acaso: era exatamente o que eu precisava ouvir naquele momento.
No fim, talvez seja isso que nenhuma tela vai substituir na minha vida: a certeza de que, em algum canto daquela estante, já está esperando exatamente o que eu preciso — só falta o tempo certo para encontrar.
Beijos da Jenny e Até.
*Jenny Melo – Escrevo minha história aos poucos, entre silêncios, livros e abraços. Sou mãe, esposa, futura jornalista… e, acima de tudo, alguém que encontra sentido nas palavras e abrigo nas páginas. Leio o mundo com o coração aberto — porque, pra mim, a vida é feita de histórias que a gente vive e outras que a gente escolhe amar.