* Sérgio de Paula
Ás vezes, ao homem, só resta mesmo o desconfortável refúgio e estigma da poesia.
Senão, o que resta para um homem que as 9 horas da manhã recebe uma multa por falta de cartão durante 15 minutos que ficou a mais no trânsito de Caraguatatuba, as 10 horas saí com seu carro para levar a sogra no consultório médico, e as 10:15 horas, tropeça com uma lombada do tamanho de um arranha-céu em plena rua Bandeirantes na Martin de Sá?
E pior: sem nem conseguir imaginar as lembranças das faixas que deveriam estar lá, amarelas sobre o asfalto negro, para alertar os motoristas! Além disso, ter que, as 11 horas, estar procurando um mecânico para consertar as avarias do carro! Que resta a este desgraçado senão a poesia?
Não aquelas torpes e frágeis, como as que cantam desencantos amorosos alimentados por egos vorazes ou insatisfações passageiras de trens, estes que nos movem rumo a vastidão do nada.
Não como as que falam em saudades inconcebíveis, amores felinos e caninos, cores e situações geográficas, onde algumas almas gostam de postar-se nuas e enterrar ali suas invisíveis lágrimas. Não.
Porque a verdade é que resta a este pobre infeliz de uma manhã infeliz, numa rua infeliz de uma infeliz cidade, blasfemar aos quatro cantos a poesia vulgar e vil dum poeta da gentalha:
– Em que cool vocês enfiam o dinheiro das multas, bando de canalhas?
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.