*Sérgio de Paula
Naquele verão, os Bouganvilles pareciam terem se refestelados no mel, tamanho era a profusão de beija-flores flanando nos céus, para bicar aqueles milhares de lábios róseos que floriam os pórticos da casa. Entretanto agora, no inverno que se abatia sobre o jardim próximo à montanha, apenas o vento fazia um balé nos ares, assoprando uma garoa fria que levava as flores ao chão. O tapete sepulcral formado por aquelas pétalas de um vivo vermelho, fazia um casamento perfeito com a grama que escorria verde e que um fotógrafo, digamos, um pouco mais atento, haveria de ver naquele ciclo de impermanência algo além de morrer de flores. Não era seu caso. E nem estava ali para quedar-se ao poema trivial da natureza morta ou das efêmeras existências. Seus olhos estavam fixos no vermelho que escorrera líquido da boca da jovem, como se o Baton Rouge que ela usasse nos lábios, tivesse se dissolvido e escorrido pelo canto da boca, pescoço, peito, até encontrar lá embaixo, a lâmina de aço cravada sobre seu seio esquerdo, que o assassino não se prestara ao trabalho de retirar. Limpou a lente e matraqueou a velha Pentax como uma rajada de impropérios. Depois, limpou o pulmão e escarrou sobre a grama, lembrando Augusto dos Anjos em Versos Íntimos e voltou para a redação, sonhando o álcool da noite.
Versos íntimos [Augusto dos Anjos]
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de sua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!).
* Sérgio de Paula é Decano no Jornalismo, tanto na região de Campinas como no Vale do Paraíba, Litoral Norte e Capital, com extensas e memoráveis passagens por Veículos e Assessorias de Imprensa em Prefeituras e na Assembleia Legislativa de SP. Em Caraguá trabalhou na Prefeitura e foi Editor da extinta Metáfora. A sua coluna terá assuntos variados que ampliam o conhecimento e forçam o debate.