*Stefan Massinger

 

Continuando escrevendo sobre o mega resort, que está sendo construído na Serra Gaúcha, perto do Bento Gonçalves nesta coluna me dedico aos comentários críticos sobre este projeto. Em Primeiro lugar quero deixar bem claro, que qualquer iniciativa de promover eno-cultura no Brasil, seja via turismo ou produção, eventos ou algo do tipo, está super bem vindo e ajude todos nós, que vivemos desta bebida milenar.

Talvez, que sou do velho mundo, de um país pequena, do tamanho do estado de São Paulo mais ou menos, e talvez por causa da cultura do vinho sendo enraizada no nosso dia a dia eu tenho pessoalmente uma outra visão de “eno-turismo”, que um projeto gigantesco no meio das vinícolas.

Mas não vamos só resmungar e ser pessimista, olhando para este projeto de nome “Bewine Resort”.

O primeiro fato, que me chamou atenção foi a “adega de 11 andares para 18 mil garrafas com foco em produtos nacionais” … Eu me pergunto – temos tanta variedade assim mesmo, ou vamos encher estes 11 andares com os Miolos, Valdugas, Geisse e os outros conhecidos…mesmo com todos produtos deles não passamos de 300 garrafas em conjunto, e aí eu já estou generoso… ainda dá espaço para 17700 garrafas. Sei que temos excelentes vinícolas menores como Luiz Porto, Guaspari, Adolfo Lona entre muitos outros, mas juntando a linha deles de uns 10-15 tipos de vinhos diferentes ainda não enche os 18000 lugares! Sei, que não vai ter uma garrafinha de cada lá, mas aí eu me pergunto – não será mais adequado de ter uma adega realmente de todos produtores brasileiros com toda a linha deles e de cada um uns 6-18 garrafas? – Aposto não ultrapassará as 5000 garrafas. (números baseados no meu “achômetro” pessoal, confesso!)

Ai outro aspecto, além do gigantesco complexo da construção e eventuais efeitos negativos peara o meio ambiente, eu vejo que temos mais que 400 apartamentos em sistema de “multipropriedade”. Ou seja, você pode pagar mensalidades e sempre terá um apartamento para sua disponibilidade.

Coisa boa, hein..? – Pois bem, primeiramente, sendo proprietário de um apartamento deste jeito, você vai parar de viajar para outras regiões que oferecem eno-turismo, seja nacionais ou internacionais, como Toscana, Catalunha, Alentejo, Bordeaux, Mendoza ou Vale central para apenas mencionar os mais conhecidos…

Mas pensando apenas para o lado nacional, um projeto gigantesco ao meu ver matará todo esforço, que os inúmeros vinícolas familiares no sul do nosso país fizeram durante os últimos anos. Com degustações personalizadas, alojamento na vinícola, atendimento familiar, resumindo algo menor, mais aconchegante e garantindo assim renda para muitas famílias e pequenos produtores.

“Foodmarket” “rooftop”, “skyglass” como grandes experiencias gastronômicas também são coisas, que me mais assustem, que atraem. Além dos anglicismos, isso significa para mim, que aquele resort merece o nome de “Disney do vinho” – acabou o atendimento aconchegante com pão caseiro, queijo do vizinho, boa taça numa roda de amigos e pessoas que se tornem amigos. Não, no BeWine teremos uma excelente culinária sem dúvida, mas servido da forma fria, internacionalizada, gourmetizada e com certeza nada barata.

Repito – qualquer iniciativa que promove a cultura de vinho no Brasil terá sempre meu apoio e merece todo respeito. Mas, precisamos mesmo uma coisa gigante como este? Nos amigos e apreciadores de bons vinhos, não estamos mesmo buscando aqueles momentos nas cavernas no meio das barriques? Comendo queijo regional, pão fresco da tia e uma bela taça de vinho, e alguém que nos explique com brilho do olho com o bisavô dele ensinou o avô dele fazer vinho? Aquelas histórias em lugares familiares, menores, aconchegantes, sabe – não é isso, que gostamos da cultura do vinho? Queremos realmente um Disney do vinho – e isso, com todo respeito num país bebezinho na tradição de vinho?

E pergunto mais – se não dá certo? Se este elefante branco uns anos depois fecha as portas por falta de freguesia, mal gestão ou o que seja? 60 mil metros quadrados seriam condenados para a morte. E até acontecer isso (de novo repito – não estou torcendo para isso, ao contrário!) levará montes de pequenas pousadas e estabelecimentos gastronômicos de eno-turismo junto. Ficará um deserto na tão linda e prospera Serra Gaucha. Eu não quero isso para nosso Brasil e a vinicultura, que está começando a se estabelecer!

 

* Stefan Massinger nasceu na Áustria, sul de Viena, numa região de vinhos. Vive em Caraguatatuba, sendo master do grupo Wine, o maior e-commerce de vinhos da América Latina, responsável para gestão de pessoas e vendas. Também já trabalhou com venda de vinhos e atua também como consultor independente de negócios.

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